Estaca Strauss e estaca Hélice Contínua são duas soluções de fundações profundas utilizadas no Brasil, mas com processos executivos, capacidades de carga e faixas de aplicação bem diferentes. Entender essas diferenças é essencial para selecionar a fundação mais segura, econômica e adequada ao contexto geotécnico e urbano da obra.
O que é Estaca Strauss
A estaca Strauss é uma estaca escavada com revestimento metálico recuperável, executada por meio de um bate-estacas específico, utilizando uma ferramenta chamada piteira ou sonda.
- A perfuração é feita com a piteira, enquanto tubos de aço roscados vão sendo cravados para revestir o fuste.
- Ao atingir a profundidade de projeto, limpa-se o fundo, posiciona-se a armadura (quando necessária) e concretiza-se com concreto plástico, retirando gradualmente o revestimento.
Dimensões e capacidades típicas de mercado incluem diâmetros da ordem de 320, 420 e 520 mm, com cargas nominais em torno de 35 t, 55 t e 85 t, respectivamente, dependendo do concreto, da armadura e do controle executivo.
O que é Estaca Hélice Contínua
A estaca hélice contínua monitorada é uma estaca moldada in loco com trado helicoidal contínuo, dotado de haste central oca para bombear concreto.
- O trado é introduzido no solo por rotação até a cota de projeto, sem ser retirado durante a perfuração.
- Em seguida, o concreto é bombeado pela haste oca sob pressão, enquanto o trado é retirado, formando o fuste de baixo para cima; a armadura é introduzida depois, aproveitando o abatimento elevado.
Diâmetros usuais situam-se em torno de 300 a 800 mm, com cargas admissíveis que podem atingir dezenas ou centenas de toneladas por estaca, conforme diâmetro, solo, fck e detalhamento estrutural.

Imagem 1 – Hélice Contínua da Gontijo Fundações
Estaca Strauss x Hélice Contínua: diferenças técnicas essenciais
Processo executivo e interação com o solo
- Estaca Strauss
- Escavação com retirada de solo e uso de revestimento metálico cravado progressivamente.
- Há risco de desconfinamento lateral e de subida do concreto durante a retirada dos tubos se o controle de concretagem não for rigoroso.
- O processo é sensível à presença de água e a solos muito moles ou arenosos submersos, com risco de colapso das paredes do furo.
- Estaca Hélice Contínua
- Perfuração realizada com trado helicoidal contínuo, na qual o solo é deslocado ou retido nas hélices do trado, permanecendo contido até o início da concretagem da estaca
- O concreto é injetado sob pressão, com monitoramento de volume, pressão e sobreconsumo, o que favorece o preenchimento e o confinamento do fuste.
- O método gera vibrações muito reduzidas e baixo ruído, tornando-se adequado para áreas urbanas sensíveis.
Vantagens e desvantagens práticas
Principais vantagens da Estaca Strauss
- Equipamento compacto, de menor custo de mobilização, adequado para obras pequenas ou com acesso restrito.
- Execução possível em terrenos com desnível e em canteiros com pouco espaço para grandes máquinas.
- Processo conhecido por equipes de campo em obras convencionais de edificações de pequeno e médio porte.
Principais desvantagens da Estaca Strauss
- Capacidade de carga limitada, inviabilizando sua aplicação em pilares com grandes esforços.
- Sensibilidade a água e solos moles, com risco de seccionamento ou falhas de concretagem.
- Controle de qualidade mais empírico, sem monitoramento eletrônico contínuo da execução.[2]
Principais vantagens da Estaca Hélice Contínua
- Alta produtividade, com potencial de execução de dezenas de estacas por dia em boas condições de obra.
- Elevada capacidade de carga, permitindo, em muitos casos, a redução do número de estacas por pilar. Relatos técnicos e comparativos de mercado indicam que, para um mesmo diâmetro e tipo de solo, estacas hélice contínua apresentam, em geral, capacidades de carga 30% a 50% superiores às estacas Strauss. Isso se deve principalmente ao melhor confinamento lateral do solo e à injeção de concreto sob pressão durante a execução, o que favorece a mobilização do atrito lateral e da resistência de ponta.
- Baixa vibração e reduzido nível de ruído, além de controle eletrônico contínuo de torque, pressão e volume de concreto, garantindo rastreabilidade e registro executivo individual por estaca.
Principais desvantagens da Estaca Hélice Contínua
- Equipamentos de maior porte, exigindo boa logística de acesso, área de giro e alimentação de concreto bombeável.
- Maior dependência de concreto de qualidade e de usina, com controle rigoroso de abatimento e fck.
- Desafios para introdução de armaduras longas em estacas profundas, exigindo planejamento de armaduras rígidas e cronograma ajustado.
Tabela comparativa: Estaca Strauss x Hélice Contínua
Comparação técnica entre Estaca Strauss e Estaca Hélice Contínua
| Critério | Estaca Strauss | Estaca Hélice Contínua Monitorada |
| Tipo | Estaca escavada com revestimento metálico recuperável | Estaca moldada in loco com trado helicoidal contínuo e haste oca |
| Execução | Escavação com piteira e cravação de tubos, seguida de concretagem | Perfuração com trado contínuo e concretagem sob pressão na retirada |
| Interferência no solo | Retirada de solo com possível desconfinamento na remoção do tubo | Deslocamento ou remoção de solo com concreto pressurizado e melhor confinamento |
| Vibração e ruído | Baixos, com operação de bate-estacas tipo Strauss | Muito baixos; método aceito em áreas urbanas sensíveis |
| Solo e lençol freático | Exige solos com alguma coesão; evitar argilas muito moles e areias submersas | Aplicável em ampla faixa de solos, com atenção a solos moles e arenosos submersos |
| Capacidade de carga típica | Baixa a média; geralmente inferior à hélice contínua para mesmo diâmetro | Média a alta; frequentemente adotada para pilares de grandes cargas |
| Produtividade | Moderada; adequada a volumes pequenos e médios | Alta; indicada para frentes com muitas estacas e prazos curtos |
| Controle executivo | Visual e dimensional: material escavado, cota, prumo, abatimento, fck. | Monitoramento eletrônico de torque, pressão, volume e sobreconsumo |
| Equipamento e logística | Equipamentos simples, compactos e de baixo custo | Equipamentos especializados, exigindo concreto bombeável e logística robusta |
| Obras típicas | Pequenas e médias, com cargas moderadas e acesso restrito | Médias e grandes, com altas cargas e exigência de rastreabilidade |
Quando especificar Estaca Strauss ou Hélice Contínua
A escolha entre estaca Strauss e hélice contínua vem mudando nos últimos anos, mas deve considerar simultaneamente solo, cargas, entorno urbano, prazo e disponibilidade de equipamentos.
Use Estaca Strauss, em geral, quando:
- A obra é de pequeno a médio porte, com cargas por pilar relativamente baixas.
- O canteiro possui pouco espaço ou restrição de altura, dificultando a operação de perfuratrizes de hélice contínua.
- O subsolo apresenta solos com alguma coesão, com pouca influência do nível d’água e sem necessidade de grandes comprimentos de estaca.
Prefira Estaca Hélice Contínua, em geral, quando:
- As cargas por pilar são elevadas, tornando estratégico reduzir o número de estacas.
- A obra está em região urbana com sensibilidade a vibração e ruído, mas com demanda de alta produtividade.
- Há exigência de rastreabilidade e documentação detalhada da execução, com boletins por estaca para fins de controle e auditoria.
Em qualquer cenário, a decisão deve respeitar a NBR 6122:2022 quanto à investigação geotécnica, verificação da capacidade de carga, uso de fórmulas semiempíricas e, quando necessário, provas de carga estáticas ou dinâmicas.
Mudança tecnológica e o papel da mini hélice contínua
Nos últimos anos, o avanço dos equipamentos de mini hélice contínua monitorada tem alterado significativamente o panorama de escolha entre estacas Strauss e hélice contínua no mercado brasileiro de fundações.
Tradicionalmente, a estaca Strauss era frequentemente adotada em obras de pequeno e médio porte por utilizar equipamentos compactos, de menor custo de mobilização e capazes de operar em canteiros com espaço restrito ou terreno pouco nivelado — condições que, no passado, limitavam o uso da hélice contínua convencional.
Entretanto, o desenvolvimento de perfuratrizes de mini hélice reduziu essas barreiras logísticas. Esses equipamentos mantêm as principais vantagens técnicas da hélice contínua tradicional, concretagem sob pressão, melhor confinamento do solo e monitoramento eletrônico dos parâmetros executivos ao mesmo tempo em que conseguem acessar áreas com espaço limitado, altura restrita ou dificuldades de manobra.
Como consequência, muitas obras que antes recorreriam naturalmente à estaca Strauss passaram a adotar a mini hélice contínua, obtendo uma maior capacidade de carga por estaca, melhor controle de qualidade e rastreabilidade das estacas, um menor risco executivo associado a presença de água ou solos moles, além de uma baixa vibração e ruído, compatíveis com áreas urbanas sensíveis.
Esse movimento tem levado a um progressivo desuso da estaca Strauss em diversos tipos de empreendimentos, não porque o método tenha deixado de ser válido, mas porque a mini hélice passou a oferecer um desempenho técnico superior com viabilidade logística semelhante.
A estaca Strauss, entretanto, continua sendo uma solução adequada em situações específicas — especialmente quando o acesso é extremamente restrito, o porte da obra é reduzido ou o custo de mobilização de perfuratriz ainda inviabiliza a hélice contínua.
FAQ sobre Estaca Strauss x Hélice Contínua
1. Qual a principal diferença entre estaca Strauss e hélice contínua?
A estaca Strauss é uma estaca escavada com revestimento metálico recuperável, concretada após a escavação, enquanto a hélice contínua é executada com trado helicoidal contínuo e concretagem sob pressão, com monitoramento de parâmetros de execução.
2. Estaca hélice contínua sempre suporta mais carga que a Strauss?
Em muitos comparativos, a hélice contínua apresenta capacidades de carga significativamente maiores para o mesmo diâmetro, devido ao confinamento lateral e à injeção de concreto sob pressão, mas a escolha final precisa considerar o solo, o dimensionamento e os critérios normativos.
3. A estaca hélice contínua gera vibração significativa na vizinhança?
Não; um dos principais motivos para o uso da hélice contínua em áreas urbanas é justamente a baixa vibração e o menor nível de ruído em comparação a estacas cravadas, reduzindo impactos em vizinhança sensível.[4][2]
4. Como a NBR 6122 influencia a escolha entre Strauss e hélice contínua?
A NBR 6122:2022 define diretrizes para investigação de solo, dimensionamento, segurança e controle de execução de fundações, incluindo estacas escavadas e moldadas in loco, orientando a avaliação de capacidade de carga e os critérios de aceitação de cada tipo de estaca.
5. Por que a mini hélice tem substituído a Strauss em algumas obras?
Porque a mini hélice combina equipamento de porte reduzido com as vantagens técnicas da hélice contínua tradicional: concretagem sob pressão, melhor confinamento do solo e monitoramento eletrônico da execução, oferecendo maior confiabilidade técnica sem exigir grandes canteiros.
Referências Bibliográficas
- NBR 6122-2022 – Projeto e execução de fundações.pdf
- Curso de Fundações – Volume 2.pdf
- https://www.estacafort.com.br/comparativo-entre-estacas.html
- https://doi.editoracubo.com.br/10.4322/cobramseg.2022.0917.pdf
- https://blog.apl.eng.br/conheca-aqui-os-principais-tipos-de-estacas-para-fundacoes/
- https://www.usf.edu.br/galeria/getImage/768/3375793869242864.pdf
- https://connect.itf.edu.br/galeria/getImage/768/3375793869242864.pdf
- https://ipoli.macae.ufrj.br/wp-content/uploads/2023/11/TCC_PALOMA_GOMES_-_VERSAO_FINAL.pdf
- 5 – NBR 6502 – 1995 – Rochas e Solos.pdf
- 6 – NBR 08036 – 1983 – Programação de Sondagens para Simples Reconhecimento.pdf
- 4 – NBR 8044 – 2018 Projeto Geotécnico.pdf
- 4 – NBR 5629 – 2018 – TIRANTES ANCORADOS NO TERRENO – PROJETO E EXCUÇÃO 3-3.pdf
- 4 – NBR 5629 – 2018 – TIRANTES ANCORADOS NO TERRENO – PROJETO E EXCUÇÃO 1-3.pdf
- 4 – NBR 5629 – 2018 – TIRANTES ANCORADOS NO TERRENO – PROJETO E EXCUÇÃO 2-3.pdf
- 3 – NBR 11682 – 2009 – ESTABILIDADE DE ENCOSTA.pdf
- 7 – NBR 6484 – 2020 – Sondagem SPT.pdf
- 5 – NBR 16920-2 de 012021 – Muros e taludes em solos reforçados – Parte 2 Solos grampeados.pdf
- Curso – Estruturas de Fundação – 1ª parte (fev.2003).pdf
- 5 – NBR 16920-1 de 012021 – Muros e taludes em solos reforçados – Parte 1 Solos reforçados em aterros.pdf
- Checklist de conformidade NBR 6122 para projetos executivos de fundações[1].docx